Nem o Sol cobre melhor as notícias que César de Castro

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Um padre muito enrolado.


 



Lembrando dos nossos irmãos do interior do Brasil, resolvi contar um causo muito interessante.

Padre Anacleto ia pra Perdição. Estradinha a fora, cheia de buracos e de poeira, dirigindo seu fusquinha velho. Curva em cima de curva. Matão danado em volta. Se Tabuí já é sertão, imagine só o que era o sertão de Tabuí. Fusquinha ora engasgava, ora tremia, ora dava umas rateadas, mas ia indo. Subida então, era um desarranjo. Carrinho aprontava berreiro danado, soltava fumaça por tudo quanto é buraco, mas ia rodando. Seu vigário um tanto quanto pesado.

Aí chegam os dois, Padre Anacleto e o fusquinha, no matão mais fechado. Aquele onde todo mundo falava que tinha umas onças... Bichanas nem podiam sentir cheiro de carne humana que tavam em cima da carniça. De tão fechado o mato, parecia até que tinha escurecido. E, para arrematar, povão dizia que assombração ali também era mato. Sô vigário não acreditava muito nessas coisas não, mas por via das dúvidas, era bom ficar prevenido. Foi lá que aconteceu a desgraça: pneuzinho careca do fusquinha furou. Rodar com pneu furado prejuízo na certa. Paróquia pobre. Padre pobre. Sair do carro risco grande demais. Coragem pouca. Padre Anacleto craneia, craneia e não acha solução. Nenhum vivente à vista. Ninguém para uma demãozinha. Viu que tava mesmo cagado de arara. Casamento lá na Perdição tinha hora marcada. Noivinha já devia estar chegando à igrejinha na charrete toda enfeitada. Agoniada esperando a grande hora.

Com um friozinho na barriga coitado do padre resolve sair do carro e trocar o pneu. Rezando o Creindeuspadre. Atento a qualquer barulho. Suando frio dentro da batina larga e puída. Olhando de rabeira pra tudo quanto é sombra. Pronto para refugar frente a qualquer sinal suspeito. Trabalhão danado pra tirar pneu furado. Mãos acostumadas a rezar missa, sem traquejo com chaves, macaco e parafusos. E a tralha velha não colaborava: macaco sem óleo, chave da boca maior que as cabeças dos parafusos... Tirou o bicho mais no muque, com uns palavrões seguidos de Padrenossos, do que com a ajuda do macaco e da chave de rodas. Pegou a calota, virou-a de boca pra cima e nela colocou cuidadosamente os quatro parafusos pra não perder nenhum e nem pegarem poeira. Como o carrinho estava meio mole, freio de mão avariado, resolve procurar uma pedra para calçar o danado. Bem no barranco, assim perto duma moitinha, vê uma pedrona boa. Borrando de medo, mas com muita fé em Deus, sai de perto do carro e vai pegá-la. Um pé na frente e  outro atrás, pronto para a refugada. Quando tá com a bruta nas mãos, fazendo força, ouve um barulhão dentro da moita. Sente aquela friagem na espinha, pernas amolecem, coração acelera e os poucos cabelos arrepiam. Mas instinto de sobrevivência fala mais alto e o pobre do Padre Anacleto sai numa desabalada corrida carregando a pedra. Reto no rumo do fusquinha. Chega perto do carro, solta a dita cuja de qualquer jeito e tafuia dentro dele esperando pelo pior.

Fica no quieto tempão danado, a ponto de rezar quase todo o rosário, e... Nada. Bicho nenhum aparece. Nem assombração. Negócio era criar coragem novamente e voltar ao que tinha começado. Melhor pensar que o barulho era de algum lagarto ou de um gato do mato assustado. Assim que o padre sai do carro é que vê a burrada que fez. A pedra caíra na borda da calota e, com a queda, jogou os parafusos pra longe, no meio do mato. Achá-los, impossível. Procurar, nunca. Desespero toma conta do coitado. Xinga umas palavras em italiano, mas rapidinho se arrepende e pede perdão a Deus. Já sujo, molhado de suor, rezando baixinho, com fome, senta lá dentro do carro esperando solução. Noite chegando. Medo agoniado e inconfesso espremendo o peito.

Depois de muito rezar, vê um vulto aparecer no alto do morro. Põe óculos, tira óculos... E o vulto descendo. Devagarinho. Pára, anda, pára de novo. E o Padre Anacleto tremendo e butucando de olho arregalado:

- Ai Dio mio, agora é sombração mesmo!... O que que eu fiz de errado, meu Deus? Virgem!...

O santo homem sente vergonha de si mesmo, do medo que estava sentindo e se lembra até dos sermões que fazia na missa do domingo contra essas crendices pagãs. Na prática teoria era outra. Novamente põe óculos, tira óculos e o vulto vindo. Sem pressa, naquele mato escurecente. Quando o vulto chegou bem perto foi que o Padre Anacleto entendeu que era gente. Gente de verdade. E não é que ele conhecia o dito? Era o Dejalma. O doido lá de Tabuí.

Aí Padre Anacleto se encheu de coragem e saiu do carro. Foi com santo alívio que cumprimentou o recém-chegado:

- Boa tarde, Dejalma! O que que anda fazendo por estas bandas, figlio mio?

- Tarde!

- Tá passeando, Dejalma?

- Pensano!...

- Pensando em quê, Dejalma?

- Cê leva ieu?

O padre pensou consigo mesmo: "que adianta eu querer conversar com este maluco? O maledetto não diz coisa com coisa mesmo!". Mas, como não queria perder a companhia, mesmo sendo de um lelé da cuca, continuou o papo como se fosse tudo dentro da maior normalidade.

- Levar, levo, figlio! Negócio é que o pneu tá furado...

- Por que ocê num troca?

- Era o que eu ia fazer, Dejalma, mas perdi todos os parafusos desta roda e não tenho outros para colocar no lugar...

Dejalma parece que esquece do que estavam falando. Fica olhando pro mundo. Resolve dar uma volta em torno do carro como se o examinasse com olhos de comprador. Olha daqui, olha dali... Desenha uma careta no vidro empoeirado... Dá uma risada... Abre porta, fecha porta... Pára. Olha pra moita na beira do barranco onde vê um pé de murcha-mulata carregadinho de flor. Vai lá, pega um galhinho e vem cheirando. Sô vigário só de butuca. Quando ia perguntar se podia contar com aquela companhia maluca noite a fora, naquele ermo, Dejalma dá uma aspirada na murcha-mulata e olhando para um ponto fixo no espaço, diz:

- Por que ocê num tira um parafuso de cada rodeira e põe nessa?

Foi tudo muito rapidinho. Padre Anacleto e o Dejalma chegaram à Perdição quando a noiva, triste e chorosa, estava dentro da charrete pronta pra ir pra casa e o povão já indignado com o que seria uma grande desfeita do seu vigário. Ninguém entendeu foi porque o Padre Anacleto estava andando na companhia daquele maluco. Também ninguém perguntou. Povo da Perdição é assim: não é especula, só sabe o que é pra ser sabido.

César de Castro · 99 vistos · Deixe um comentário
08 Set 2008

César de Castro reservou uma domingueira pra você!!!


28 de Setembro tem

 

FEIRA DE SÃO CRISTÓVÃO
 


UM DOMINGO ESPETACULAR PARA TODA A

FAMÍLIA


Feira de São Cristóvão - Centro Luiz Gonzaga

de Tradições Nordestinas

 

Um pedaço do Nordeste no Rio de Janeiro. Assim pode ser
 
definido o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas,
 
onde funciona a tradicional Feira de São Cristóvão. São cerca
 
de 700 barracas fixas que oferecem as várias modalidades da
 
cultura nordestina: culinária típica, artesanato, trios e bandas
 
de forró, dança, cantores e poetas populares, repente e
 
literatura de cordel. Visitar a Feira de São Cristóvão é um
 
programa que atrai cerca de 450 mil visitantes por mês, entre 
turistas e cariocas.


O preço da entrada é mínimo e o local oferece boa infra-

estrutura, com pistas de dança, palcos para shows, 35
 
restaurantes de culinária nordestina, lojas de venda de
 
artesanato, banheiros públicos e estacionamento.
 

 

A Feira funciona desde 2003 dentro do Pavilhão de São
 
Cristóvão, marco da arquitetura moderna brasileira, reformado
 
pela Prefeitura com o objetivo de preservar esse espaço
 
tradicional da cultura nordestina na cidade. Domingo, todas as
 
barracas funcionam ininterruptamente, animadas por trios e
 
bandas de forró, que se apresentam nos dois palcos principais
 
– João do Vale e Jackson do Pandeiro -, além de shows de
 
repentistas e cordelistas na Praça Catolé do Rocha, no centro
 
do Pavilhão.
 

O melhor preço da Zona Oeste:


Adultos (Acima de 12 anos, inclusive) R$ 18,00


Crianças até 04 anos – Grátis (No colo do responsável)
 

Jovens de 05 a 11 anos – R$ 12,00


 

O que está esperando?

Ligue já! 3477-3777

César de Castro · 51 vistos · Deixe um comentário
04 Set 2008

Quem vai substituir o homem???




O Serviço de Pesquisas Independentes César de Castro perguntou: Quem será o novo presidente do Brasil?
Sessenta pessoas foram chamadas a responder. Cinqüenta e cinco responderam e cinco se recusaram a dar qualquer palpite.


Resultados da Sondagem:

Ciro Gomes: 9 (16%)
José Serra: 13 (24%)
Nelson Jobim: 0 (0%)
Aécio Neves: 16 (29%)
Sérgio Cabral Filho: 0 (0%)
Anthony Garotinho: 1 (2%)
Cristovan Buarque: 4 (7%)
Geraldo Alckmin: 4 (7%)
Heloísa Helena: 0 (0%)
José Arruda: 2 (4%)
Jaques Wagner: 0 (0%)
Outro
6 (11%)


Não é quem você gostaria que fosse, mas quem você acredita que tem mais chance de vencer. Difícil? Com certeza.

O 'El Pais' declara: com a descoberta do pétroleo o Brasil tomará as rédeas da América do Sul.
O país se prepara para a Copa de 2014.
O país está na frente na produção de biocombustível.
Possuímos abundantes bacias hidrográficas e a água vai começar a faltar.
O país tem vocação agrícola e o alimento no mundo não pára de subir, diz a ONU.
Se controlar as queimadas amazônicas o país ficará bem no mercado do carbono.
Os desafios para transformar o país numa potência reformando a infra-estrutura de transporte (portos, aeroportos, rodovias, hidrovias, ferrovias etc.), a infra-estrutura enérgetica (gás, petróleo, eletricidade etc.) a educação, a pesquisa e desenvolvimento, a tributação, a previdência, a saúde, o saneamento, etc. Não será mais do presidente atual e sim de um terceiro.

Quem será?

César de Castro · 72 vistos · Deixe um comentário
29 Ago 2008

O Procurado é o filme que você procura?

O PROCURADO

Fotos: Divulgação

 

Já que estamos chegando ao final de semana, afinal amanhã é sexta-feira e muita gente já planeja o que fazer em matéria de diversão, entretenimento, aquele chopinho ou quem sabe, pegar um cineminha.

A crítica cinematográfica que coloco é importante para os que gostam de conferir o que é bom e também aquilo que é apontado como ruim. Temos que levar em conta que gosto não se discute?!


O trailer de O Procurado já prenuncia o que esperar deste filme: um filme de ação desenfreada, cheio das costumeiras perseguições automobilísticas e com o adicional de ser mais um longa calcado no estilo pós-Matrix, ou seja, compreendendo uma espécie de realidade alternativa onde balas de revólver fazem curvas e pessoas atravessam vidraças no alto de um prédio e caem de pé num terraço do outro lado da rua. Some-se a isso uma Angelina Jolie vestindo um personagem que parece a junção da Sra. Smith com a Lara Croft e Morgan Freeman repetindo outra variação daquele papel de Deus. Enfim, o único elemento que parece um pouco imprevisível nesse contexto todo é o escocês James McAvoy distribuindo socos e tiros a granel.

Baseado na graphic novel homônima de Mark Millar e J.G. Jones, a história de O Procurado parte do princípio da existência de uma milenar fraternidade secreta de assassinos dotados de habilidades extraordinárias. Wesley Gibson é um contador que odeia seu trabalho e sua chefe, vive sem dinheiro, mora num apartamento decadente e, para piorar, sabe que sua namorada o trai com seu colega de trabalho e não consegue fazer nada a respeito. Mas tudo muda no dia em que encontra uma bela e misteriosa mulher, que lhe revela que o pai que ele nunca conheceu pertencia a essa fraternidade e acaba de ser assassinado por um ex-membro. Com sua vida também em risco, Wesley aceita ser treinado pela fraternidade para desenvolver seu potencial adormecido e, quando estiver pronto, vingar a morte de seu pai.

O Procurado é o primeiro filme em inglês do russo Timur Bekmambetov, que fez sucesso com os toscos e superestimados Guardiões da Noite e Guardiões do Dia. Claro que, considerando o histórico do diretor, não se poderia esperar um argumento menos absurdo. Mas até aí tudo bem, a maioria dos filmes de ação têm argumentos absurdos. O problema é que é tudo muito mal-explicado, jogado a esmo na história. Mesmo dentro daquele já citado universo onde as leis da física são abolidas, há que se manter certos parâmetros e um mínimo de coerência. Senão entra-se em um terreno onde “pode tudo” e a trama perde completamente a graça.

Não bastasse a estética copiada de Matrix, o filme ainda tenta desenvolver em paralelo uma ideologia estilo O Clube da Luta através do protagonista. É impossível assistir às cenas iniciais, com Wesley sentindo-se anestesiado pela sua vidinha modorrenta, e não lembrar das cenas de Edward Norton no escritório. Pode-se dizer o mesmo de seu comportamento pós-descoberta da fraternidade, com ele mandando tudo às favas e assustando a chefe com seu discurso bizarro.

O filme é barulhento, pseudo-estiloso e com exageros irritantes como, por exemplo, a personagem de Angelina Jolie entrar com carro e tudo em um trem em movimento, arrebentando a carroceria deste. Desnecessário. Chato. Dá vontade de fechar os olhos e cochilar, a despeito da zoeira nos tímpanos. E claro que, quando falamos de Angelina, vale ressaltar que a sensualidade da atriz é explorada de todas as formas possíveis, com seus olhos bem delineados e lábios enormes sempre em close. Sem contar uma tomada feita com o único objetivo de mostrá-la nua de costas. É simples assim: James McAvoy está conversando com outro personagem, ela surge saída da banheira, deixa os rapazes boquiabertos e sai de cena. Mas espantoso que isso é ver McAvoy, bom ator que tem no currículo filmes respeitáveis como O Último Rei da Escócia e Desejo e Reparação, submetido a um filme desse nível.

Para coroar o que já era suficientemente péssimo, a resolução da história apóia-se toda numa argumentação frouxa e em um raciocínio facilmente desmontável por qualquer ser humano. Nem precisaria ser super dotado para chegar a certas conclusões ali. Depois de toda a tortura, um pouco da sempre boa música de Danny Elfman durante os créditos restaura um pouquinho do bom humor perdido ao longo da projeção.

Cotação para este filme:
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César de Castro · 343 vistos · Deixe um comentário
28 Ago 2008

NAS MULHERES QUE VOAM J. Carino recebe a homenagem de nosso blog pelas belas palavras

DUAS MULHERES


 

No rosto redondo de uma, um sorriso que parece de menina travessa. Um jeito de ser que se mostra talhado para desafiar limites e convenções. Na respiração forte, um coração que tanto se aplica ao esforço inaudito da atleta quanto se derrete, maternalmente, por Sophia, sua filhinha que vê de longe, sem entender direito, a glória de sua mãe.

Na outra, um rosto belo, com aqueles olhos imensos que se viram e ficam imobilizados na direção do céu. Os lábios que se movem lentamente, balbuciando talvez uma prece.

O corpo esbelto, ereto, apóia-se na vara de salto. As mãos, ao mesmo tempo em que se firmam com decisão contra a vara, parecem acarinhá-la. Concentração absoluta. Decisão. Confiança. E elegância. Assim se mostra Yelena Isinbayeva, para mim um dos símbolos dessas olimpíadas na China.

Determinação, força, energia, todas elas envolvidas em feminilidade igualmente elegante. Assim se apresenta Maurren Maggie, o outro símbolo olímpico no solo chinês.

Talvez somente o esporte permita a mistura perfeita de competência, vontade e sorte. Em Isinbayeva e Maurren, tais ingredientes se combinam com raro equilíbrio. E a sorte, quase sempre, premia os competentes. No caso dessas extraordinárias mulheres, a sorte é o corolário de muito esforço e extrema competência.

O avanço tecnológico na captação das imagens nos transforma, hoje em dia, em espectadores, privilegiados e extasiados, diante do desempenho dos atletas. Nas imagens lindíssimas, em câmera extremamente lenta, podemos observar, com detalhes, o movimento dos corpos, os rostos em contração, até as gotas de suor, testemunho em pérolas líquidas do empenho das competidoras.

Nessas imagens vagarosas, a genialidade de Izinbaeva é destacada. E o salto com vara me impressiona sob um aspecto particular. Falo com a ingenuidade dos leigos, com certeza, mas será que você, prezado leitor, já não imaginou, como eu, que aquela vara pode se partir? Por isso, acho bela a confiança com que os atletas dessa modalidade correm, empunhando aquele longo bastão.

É belo igualmente o momento da elevação. A vara se verga, numa espécie de correspondência da confiança nela depositada pelos atletas, e depois os projeta para cima, no movimento que almeja ultrapassar o sarrafo.

O salto em distância também me impressiona. Como é que um corpo, elevado apenas pela vontade superior dos atletas, consegue voar e pousar lá adiante, onde parecia impossível chegar? E, antes disso, eis outra luta travada, esta com meticulosidade: controlar as passadas rápidas, enérgicas, evitando pisar para além do fatal e ameaçador limite da tábua.

Em Maurren e Isinbayeva, tudo isso acontece na execução de um balé de beleza: as mulheres lindas projetam seus corpos, contorcendo-os, impulsionando-os em movimentos quase eróticos, até que suas silhuetas esguias se elevem  em vôos que pareciam quase impossíveis de acontecer.

Como passa junto do obstáculo o corpo de Izinbaeva! À nossa distância de espectadores, muito menos capazes de perceber os detalhes que as câmeras, com sua precisão tecnológica, parece que a penugem que cobre sua pele, roçará no sarrafo, derrubando-o lentamente, como se derrubam sonhos – e, antes de mais nada, no esporte, são sonhos que há para derrubar.

Como pousa na areia o corpo bem torneado de Maurren! Quando atinge novamente o chão, a areia se transforma numa poeira dourada, antecipando o ouro que conquistará. Num ângulo quase impossível, as belas pernas se projetam e conquistam aquele centimetrozinho que deixará todas as outras concorrentes para trás.

Mesmo quando cai no solo, ao final do salto, já podemos vislumbrar um sorriso de Maurren em meio a esses grãos de ouro da areia, que a envolve e como que a festeja.

Penso novamente nos olhos de Izinbaeva no início dos seus saltos. Aqueles olhos grandes parecem expressar a melancolia profunda da alma russa, ao mesmo tempo em que expressam uma confiança poderosa, que é apanágio dos vencedores.

Logo depois, como faróis brilhantes de seu corpo, os olhos de Izinbaeva voam. E o que refletirão quando voam: nessas olimpíadas apenas o céu não tão azul de Pequim? Ou também a nostalgia das estepes? Ou ainda os dramas de um Gorki, um Tolstoi, um Dostoiewsky? Estarão, talvez, embalados pela música de um Tchaykowski?

Mesmo depois que o ouro estava garantido – resultado previsível, tendo em conta a excepcional trajetória dessa bela mulher e competente atleta – Izinbaeva continuou tentando e conseguindo transpor o sarrafo, colocado cada vez mais alto, como aquelas quimeras que a gente jamais alcança. Porém, Izinbaeva alcançou a indiscutível vitória, e estabeleceu um novo recorde, talvez difícil de alcançar senão por ela própria.

Maurren salta e, ao fazer isso, salta sobre as dificuldades tantas. Salta sobre um passado recente e cruel em que o fantasma do doping quase destruiu sua carreira e sua vida.

Não obstante, Maurren, a um tempo guerreira forte e mãe doce e sensível, saltou sobre essa desgraça e a converteu, com certeza, em ingrediente que a impulsionou no salto para a vitória olímpica, para a conquista do ouro tão almejado.

Também os olhos de Maurren, escuros e vivos, refletem a alma brasileira, com personagens da mais variada espécie, como os da literatura de Machado, Guimarães, Veríssimo; ou com a sensibilidade poética de Cecília e a profundidade de Clarisse. E refletem também música, como o samba, as canções de dor-de-cotovelo, a bossa nova... Ironia: com esse nome arrevesado, raras vezes se vê tanta brasilidade quanto em Maurren.

Lindas essas mulheres que saltam e voam. Poéticos os instantes de suas conquistas. Em momentos como esses, o esporte encontra seu verdadeiro espírito, talvez prestes a morrer, num mundo já muito distante dos ideais gregos, em que corpo e alma se uniam nas atividades desportivas para cultuar a vitória com honestidade e honra.

Parabéns a Maurren. Parabéns a Isinbayeva. Homenagens a essas mulheres que voam, levando com elas, a um pódio merecido, todas as mulheres do mundo, um pódio que está acima de todas as dúvidas, discriminações e preconceitos.

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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br

César de Castro · 71 vistos · Deixe um comentário
27 Ago 2008

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