Trinta moedas ou um vintém pra Judas?
Aída Marcuse
"Logo chegaria 24 de dezembro.
Quantos dias faltavam, não tinha importância: o que contava era o dinheiro para os fogos.
Fazer o Judas tinha sido fácil. Paulo, Mário, Raul e os outros meninos do bairro conseguiram as roupas. Um, a calça rota; outro, a camisa velha; o terceiro, os sapatos em desuso; e outro ainda, as meias furadas da mãe.
O chapéu foi tirado do espantalho da rocinha de Dom Pancho, que de tão velho nem se deu conta do fato.
Encheram o corpo de palha, fizeram a cabeça com as meias, pintaram os olhos, o nariz e a boca e se revezavam para tomar conta do boneco na esquina do armazém.
À noite, cada dia um levava o Judas para dormir em casa.
— Um vintém pro Judas...
Alguns davam até um real, mas era raro. Geralmente as pessoas não davam nada ou davam apenas um vintém. Os tempos estavam difíceis e o dinheiro fazia falta para outras coisas.
Nunca mandavam Alicinha pedir, no entanto ela ia sozinha, por conta própria. Com a cara suja, o nariz escorrendo, a boca aberta e a roupa que, de tão pequena, ficaria apertada no irmão menor, conseguia mais moedas do que os meninos. As pessoas ficavam condoídas dos seus olhos grandes e bem abertos de emoção.
As outras meninas só eram aceitas no final, quando os garotos viam que, sem a a ajuda delas, não conseguiriam o dinheiro para os fogos. Aí, então, saíam todos a pedir pelo bairro:
— Um vintém pro Judas...
Enfim chegou o grande dia!
É noite de Natal. No entanto, é preciso esperar a meia-noite, agüentar a ceia e as tias velhas que nunca se cansam de dizer:
— Nossa, como você está crescido!
...Devagarinho Suzana se aproximou da esquina onde o boneco
sorridente esperava seu destino, sentado numa velha cadeira de vime. E cheia de curiosidade, ficou parada admirando o Judas. Fazia pouco tempo que sua família vivia neste bairro, nesta cidade, neste país.
Tudo era novo e estranho para ela.
— O que é Judas, mamãe? — decidiu-se finalmente a pergunta.
— Não é que, é quem.
— Quem é Judas, mamãe?
— O certo é quem foi.
— Tá bem. Quem foi Judas, mamãe?
— Não foi ele, quer dizer... hum! Vá lá! Judas foi quem entregou Jesus para ser crucificado.
— Por isso, vamos queimá-lo?
— Como fazemos todos os anos... — disse Mário com tanto ódio que assustou Suzana.
Mário não era seu amigo. Os outros meninos também não. Suzana não tinha amigos no bairro, nem sequer se diziam oi!
— Mamãe, deixe eu ficar, nunca vi queimar um Judas! — suplicou.
— Não, vamos embora.
— Por quê, mamãe?
— Porque não, porque enfim, porque...
Suas perguntas eram sempre respondidas assim, sem respostas. E ela tinha tanta coisa para perguntar...
Por que eles não iam à missa aos domingos, na igreja do bairro, como faziam as outras famílias? Por que ela não havia feito a Primeira Comunhão aos oito, nem aos nove anos?
Agora, que já estava com dez anos, tinha a certeza de que nunca faria a Primeira Comunhão. Por que sua família era tão diferente das outras?
Sua mãe também não havia respondido a estas perguntas.
Dessa vez, Suzana estava decidida a encontrar sozinha a resposta. Por isso, deixou a mãe se afastar.
Encantada, acompanhava os preparativos das crianças.
Não sabia se podia sentar-se entre elas na calçada sem ser convidada. Como não lhe disseram nada, ficou de pé.
Pedro a olhou com curiosidade: não era feia essa nova garota.
Suzana devolveu o olhar de Pedro com um sorriso tímido que parecia pedir para ser aceita e querida por eles, por ele.
Pedro se aproximou devagar e parou indeciso perto dela. Estava tão próximo que Suzana podia tocá-lo.
No entanto, Pedro começou a conversar com Mário e lhe deu as costas. Enquanto isso, os outros meninos enchiam o Judas de bombas.
Suzana baixou os olhos e não se moveu, esperando que Pedro lhe falasse alguma coisa. Ele, porém, saiu distraído conversando com Mário.
Pouco a pouco foram chegando os pais das crianças.
— Papai, que horas são?
— Quinze para a meia-noite.
Logo em seguida voltavam a perguntar:
— Papai, que horas são?
— Meia-noite!
Os sinos das igrejas começaram a tocar enquanto os meninos, gritando de alegria, botavam fogo no Judas.
Suzana não perdia um gesto, um movimento, uma palavra. Pedro sorria olhando para ela... ou seria para alguém atrás dela?
As chamas fizeram o Judas estremecer, antes que as bombas
estourassem...
De repente, o Judas deu um pulo, como se estivesse vivo, e espatifou-se sobre a cadeira que também pegou fogo.
Os adultos riam e as crianças pulavam de alegria. Os meninos batiam palmas encantados. Pouco tempo depois o fogo do Judas se apagou e entre as cinzas sobraram os sapatos.
As pessoas se despediram umas das outras e voltaram para casa felizes. Os pais comentavam com os filhos a queima do Judas. Suzana ficou só. Sozinha com os sapatos que sobraram do fogo.
Sentiu frio. Pensava no Judas: teria sofrido ao se queimar?
— Era apenas trapo! — disse em voz alta, para se convencer.
Porém, os sapatos, como se fossem testemunhas, lhe diziam o contrário."
A história de Um Vintém pro Judas se passa durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), época em que o Uruguai recebeu muitos imigrantes dos países europeus em guerra.
A autora, Aída Marcuse, é escritora de livros infanto-juvenis.
Sindicação

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